Não interessa

Não interessam os dias que passem. Não interessa como se preencham as horas. Acaba por ser um tédio imenso, este de viver numa busca constante, sem saber aquilo por que se procura.
Não importa quão boas sejam as piadas. Não interessa o interesse das pessoas. Não interessam os sorrisos. Não interessam os dias de chuva torrencial ou de sol abrasador. Este tédio é imenso e é uma companhia de muitos anos e de muitos momentos a sós, em que as pessoas me rodeiam e eu sinto-me sozinho, morrendo lentamente, enquanto saboreio a vida. Lambo os lábios, como se provasse o mais delicioso dos néctares, mas é a vida que sabe bem. E sabe mal. Agridoce é o gosto da primavera e de cinzas na minha boca, na boca do meu ser, na boca da minha alma.
Os dias podem ser calmos. O meu olhar sereno pode esconder uma imensa tempestade, lá dentro, no mais íntimo do meu coração. O tédio pode reflectir-se nos meus suspiros repentinos.
Um dia calmo pode terminar na merda. Um dia de merda, pode tornar-se um dia excelente. O mar calmo pode engolir embarcações gigantescas. O mar revolto pode guardar carinhosamente as preces que nele são debitadas.
A minha alma é feita de fogo e de lágrimas, de intenso gosto de viver e do profundo abraço à morte. A minha alma é uma imensa contradicção. E nesta contradicção, perco-me... sem encontrar-me...
Não interessa nada, se nada, na minha alma, muda.

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